No topo do mundo
Abro os olhos e a parede branca me encara. Não vejo nenhum relógio mas sei que é tarde. Sei que hoje será um dia perdido, monótono, bobo até; e isso não me incomoda. Fico um longo tempo na cama, já acordada. Sem vontade de comer ou fumar. Preguiça. Ressaca. Penso neles e nas manhãs de domingo em camas alheias. Apesar do tédio da Cidade já são tantas histórias, e tão intrincadas. Tantos toques e tantas vezes a solidão compartilhada nesses mesmos toques que deveriam saná-la. Lembro-me de acordar antes, eu sempre acordo cedo em lugares onde, em princípio, eu nem deveria ter dormido. E as visões magníficas, as cenas mais lindas da história da humanidade: homens bonitos dormindo. Eu os observava sem o menor rastro de paixão e com a certeza da minha sorte. Eu sou uma mulher de sorte. Tenho sorte em ter dormido nessas camas e tenho sorte de ter a minha. É bom acordar sozinha. Um fantasma sai da parede, insinua sua face lívida e encosta seus lábios nos meus. Acabou, querida. Acabou. Levanto-me e caminho até a cozinha, tomo um copo d'água, muita sede. A casa está silenciosa e vazia, e poder escolher qual disco vai inaugurar meu dia faz com que eu me sinta muito, muito feliz.