Wednesday, September 17, 2008

Back door man

Para minha mãe.

Do um zilhão de pessoas (ou, mais exatamente, quarenta e sete) que já passaram pelo whenthetvstops, apenas quatro ou cinco gostaram do que leram. Uns três devem continuar voltando aqui com alguma regularidade. Sei que alguns amigos (tenho poucos) acompanham o blog e outros não. E pros que não acompanham, tudo bem.
Das pessoas que não gostam do whenthetvstops, tenho certeza de que pelo menos algumas se incomodam com o fato de os meus textos serem depressivos. Geralmente, as pessoas que lêem com regularidade, amigos ou não, tendem a achar triste sim, mas continuam lendo porque acham que é visceral. Já ouvi esse adjetivo algumas vezes, referente ao blog, e me orgulho muito dele. E mais ainda porque gosto de pensar que as pessoas que visitam sempre o blog também são viscerais, e eu gosto de gente visceral.
Já me perguntei muitas vezes porque eu gosto tanto de escrever sobre essas coisas depressivas.
Não considero que a tristeza seja um tema para mim. Tristeza é quando um negócio qualquer acontece e te machuca e você reage a isso. Perdi o namorado. snif. Perdi o emprego. snif. Meu cachorro morreu. snif. Bati o carro porque estava bêbado e vou morrer em 1500 reais. snif. Eu não escrevo sobre isso.
Eu escrevo sobre aquela pessoa que perdeu o namorado porque já se fodeu demais anteriormente e não sabe mais compartilhar sua vida com ninguém.
Escrevo sobre aquela pessoa que tem um trabalho incrível e se pergunta no trânsito, "será que é isso o que eu tenho que fazer com a minha vida?"
Escrevo sobre gente cuja única razão para voltar para casa é porque tem que alimentar o cachorro.
Escrevo sobre as pessoas que têm tanta vontade de conhecer e amar e se divertir e sabem que se alguma coisa ruim acontecer, vão dormir na rua porque ninguém vai pagar o táxi para que voltem para casa a salvo, e por isso dirigem bêbadas por aí.
Alguém me diz, então, se nunca passou por uma situação dessas.
Posso estar errada, mas tenho a crença de que todo mundo passa por esses momentos na vida. Até a pessoa mais linda e feliz um dia volta sozinha para casa e o silêncio esmaga a sua cabeça no travesseiro. Eu acredito mesmo nisso.
E daí vem a minha pergunta, por que diabos ninguém fala sobre isso? Por que toda vez que acontece comigo - em freqüência quase diária, devo assumir - eu não consigo imaginar que alguém esteja passando pela mesma coisa? E então eu saio por aí, vou ao Jerry's ou a qualquer outra pocilga e está todo mundo tão feliz, alegre e sorridente. Não posso evitar de pensar que sou alguma porcaria de monstro alienígena.
Eu também acho que o mundo seria um lugar melhor se alguém admitisse esses momentos bobos dos quais falei. Pouparia muito sofrimento às milhares de mulheres que sentem vergonha em não terem amigos disponíveis nas noites de sábado e pouparia os homens de alguns cortes por acharem que todas as mulheres sozinhas em noites de sábado estão procurando companhia desesperadamente.
Se eu tenho algum grande tema, é a solidão. Não gosto muito de admitir isso porque a solidão está quase tão banalizada quanto o amor, em termos de literatura. Não gosto nem de usar essa palavra nos meus textos, mas é isso. A solidão, desconfio, no fim das contas é apenas aquilo que não se compartilha. É por isso que estou compartilhando isso tudo com vocês. Porque sorrisos e alegria você pode encontrar em qualquer show de led zeppelin cover, casais apaixonados que acreditam no "até que a morte os separe" é só ir num restaurante da moda. Simpatia num momento de tristeza também não é difícil, é pra isso que inventaram a expressão "meus pêsames" pra se falar nos enterros. Mas, então, você está num dia especialmente difícil. Tentando entender porque diabos sempre é rejeitado, porque você tenta repelir o seu Dylan e é grosseira quando ele chega perto, porque em vez de desenvolver seus talentos incríveis fica se entupindo de comida ou qual a porcaria de rumo que tem de dar à sua vida. E você vai numa dessas pocilgas cheias de gente feliz que te perguntam, e aí, como você tá, o que anda fazendo, e quando você diz, porra, minha vida tá uma merda - ou seja, diz a verdade - te olham esquisito e tentam se esquivar, ou ainda, respondem com a pior frase do universo: mas você tem uma vida tão boa! pense nas crianças morrendo de fome na África.
Sim, penso nas crianças na África e quero que você vá tomar no seu rabo. Mas você não diz isso. Sorri um sorriso amarelo para não piorar a sua solidão, e se sente mais sozinho do que nunca.
O que eu acho é o seguinte:
você tem o direito de se sentir miserável.
você tem o direito de não dar beijinho de oi para qualquer imbecil que cruza o seu caminho.
você tem o direito de passar a vida inteira sem ter um objetivo fixo e imutável que vai te levar a uma aposentadoria tranqüila.
você tem o direito de não gozar toda vez que trepa.
você tem o direito de se arrepender.
você tem o direito de não querer ser feliz e completo.
e acima de tudo, você tem o direito de ser respeitado se estiver passando por qualquer dos momentos descritos, e tantos outros possíveis e igualmente depressivos.
Claro que a vida não é só essa miséria. Claro que existem amigos legais, conversas produtivas, postsecret, conexão com estranhos, orgasmos, sapatos lindos e baratos, Seinfeld, domingos chuvosos e preguiçosos, a maravilhosa expectativa de encontrar Dylan num dia de bom humor. Mas esse é o whenthetvstops, e o que eu quero é entrar no seu quarto e te dizer, você não é um monstro alienígena.

E, talvez, me convencer de que eu também não sou.