Saturday, September 13, 2008

Find your way around Chinatown

Eternal nothingness is fine if you happen to be dressed for it. Woody Allen

Lavando os pratos na tarde de sábado, bem-alimentada, pensando na vida e na não-vida, nas vidas que não são minhas. Tudo está bem por aqui. A grande histeria passou, faz dias que não vejo Dylan, dias também sem messenger. Tudo está certo por aqui, coisas demais para fazer e nenhuma preguiça. Lavando os pratos de um almoço parcialmente bem-sucedido, o que está de bom tamanho considerando minha falta de habilidade no fogão. Lavando os pratos. Todo dia. Preparar comida, comer, limpar a sujeira que a comida faz. Todo dia, às vezes quatro vezes entre meia-noite e meia-noite. Por quê? Por que tanto trabalho para comer? Para ter o que cagar?

Andando na rua, Sarah me conta a história que já ouvi vezes demais: algo deu errado. Algo sempre dá errado e fazemos a mesma pergunta. Não por quê e sim de quem é a culpa. Quem é o culpado? Para quem iremos apontar o dedo dessa vez? E sempre a mesma resposta. X fez algo comigo, e eu não esperava - porque apesar de sempre alguma coisa dar errado, nós nunca esperamos que dê errado. Passamos a porcaria da vida inteira esperando que exista alguma coisa que dê certo, que seja 100%, que seja ótima. Toda vez, alguma frustração. E a culpa é de X, que estava segurando a arma, mas a culpa é minha por estar no caminho da bala. X fez algo comigo, e não hesitarei em apontar o dedo para ele, mas a culpa também é minha, que tive expectativas com relação a X. Revolto-me: do meu lado da Cidade, ter expectativas é uma coisa negativa. Parece-me cruel demais: como pode ser ruim esperar que alguém seja bom e generoso? Todavia sei, apesar da indignação, que ninguém deve esperar isso. Esperar é ser otário. Será que a gente não aprende? Somos como os viciados em jogo. Sabemos que a chance de ganhar é de uma em um zilhão, mas toda semana estamos prontos a fazer a nossa fezinha.

Drew é incapaz de se sentir infeliz por muito tempo e adoro essa característica dela. Pergunto por aquele seu amigo que não conheço, mas do qual já gosto por antecipação. Está apaixonado, ela me diz. O pior é que ele é meio impulsivo, acho que dessa vez pode até casar. Sério?, pergunto incrédula. Sim, ela responde, ele é exatamente como eu. Nós dois sempre quisemos encontrar alguém, amar de verdade, ter companheirismo e a coisa toda. Como nunca conseguimos, aproveitamos a vida de solteiro da melhor forma possível: saímos, nos divertimos, conhecemos pessoas. Mas no fundo, somos românticos. Ainda queremos que a felicidade entre em casa arrombando a porta.
Respiro bem fundo, Drew assume um olhar distante e silencioso. Observo a cena e o local tão familiar ao nosso redor. Acho que os desejos nunca mudam, seja lá o que forem; um casamento, dinheiro, um porre interminável, um orgasmo infinito. Não temos o que queremos e ainda por cima andamos pela lama. Sentimo-nos obrigados a continuar a manutenção de nossas vidas ordinárias, comemos, nos apaixonamos, acreditamos em finais felizes que estão sempre ali, um metro além do horizonte. Porém, tenho a impressão de que não sou mais uma romântica completa. Vivo, como todos, em função do final feliz, mas tudo em que consigo pensar é na silhueta do cemitério no ponto mais longínquo que minha vista alcança. Na verdade, eu sempre quis viver para sempre. Mas como nunca consegui, pretendo aproveitar a vida de mortal da melhor forma possível.