Thursday, October 02, 2008

Neal

Simplesmente incrível. Eu ando pelas ruas e passo por milhares. Todos passantes. Não sei para onde vão. Não sei para onde vou, apesar de saber bem quais são os destinos prováveis e sempre carregar uma lista de coisas a fazer no bolso da calça jeans. Todos sempre carregam uma expressão decidida, ninguém olha para os lados. A garota loira, sigo-a por cinco quadras, a constantes dez metros dela. Ela nem percebe, não olha para ninguém. Apesar de tantas pessoas, nenhum olhar. Pergunto-me para onde ela vai. Para onde ela gostaria de ir. Ela atravessa as ruas, e é como se eu não existisse. Entra num prédio comercial, espelhado, sem rastro de tijolos. A imponência do piso me impede de entrar. Dou meia-volta e continuo pela calçada, checo a lista no meu bolso. Ainda não fiz coisa alguma. Não quero fazer coisa alguma, minha vida medíocre se resume em pegar exames em laboratórios, comprar canetas azuis novas, procurar no shopping center um presente que não diz nada sobre aquilo que tenho para dar. Checo o celular, nenhuma ligação perdida. Não que eu estivesse esperando. Continuo andando ad libitum, esperando que algo extraordinário aconteça. Não vai acontecer, eu sei. Mas eu espero o dia em que as ruas se transformem em palcos, as janelas em lentes de câmeras cinematográficas, e que todos deixem de sair de casa para pegar exames , comprar canetas, procurar objetos profanos.
E queimem.