Sobre Neal, ainda
Eu sempre fui uma grande fã de listas. Não, não estou falando daquele lance High Fidelity no qual pessoas ordinárias escolhem os mais sobre algum tema irrelevante. Estou falando das listas que comentei no texto passado, Neal. Não raro, limpando a papelada na qual vivo como um cupim preguiçoso, acho listas antigas, das quais já nem lembrava ter tido as coisas a fazer. Mas estão lá, milhares de canetas azuis a comprar e suas variações.
Além das listas ordinárias, das coisas que tenho de fazer a cada dia, também sempre fui muito fã de listas a longo prazo, geralmente anuais. Na primeira semana do ano, eu fazia a longa lista, compreendendo conquistas pessoais e intelectuais e algumas coisas, até, meio bobas: "comprar um coturno" foi presença certa por três anos quando na minha adolescência, até que finalmente comprei.
Gosto dessas listas porque indicam atividade: indicam vontade e capacidade e intenção de ação. Gosto de cumprir as tarefas designadas. Tenho um imenso prazer em escrever aquele grande "OK" ao lado do tópico.
Abra qualquer livro de auto-ajuda, abra qualquer seção de bem-estar das revistas femininas para mulheres contemporâneas, independentes, atuais e antenadas. Aliás, até se você abrir revistas para mulheres antiquadas vai estar lá escrito: barbara lovelock está fazendo o certo.
Eu estou fazendo o certo. Pois pessoas bem-sucedidas tem o hábito de escrever seus objetivos. E eu, que não resisto a uma pérola kitsch e a matar tempo folheando livros de auto-ajuda em livrarias de shopping, não pude deixar de me orgulhar.
He he. Eu faço tudo certo!
E então eu me deparo com a primeira lista anual de 2008, que fiz na primeira semana. Uma longa lista, 20 itens, 20 vontades, 20 objetivos. Estamos em outubro, eu não realizei nem cinco das coisas a que me propus. Mas, tudo bem, afinal, eu já tinha me dado conta de que as 20 coisas eram coisas demais a se fazer e eu, com meu estoque baixíssimo de energia, não conseguiria realizar tudo. Em julho, fiz outra lista. 10 objetivos. 10 coisas-a-fazer.
Foi então setembro, o mês em que certas verdades incômodas não puderam ser ignoradas. E me fizeram reduzir a lista às minhas necessidades fundamentais e inadiáveis desse doismileoito - duas -, uma boa ação e o pagamento de uma dívida cármica. Pra sair, no mínimo, no zero a zero na rodada 2008 do jogo barbara lovelock versus mundo.
Nunca uma lista tão básica, simples e óbvia. Necessária. Eu fiz a lista perfeita.
E então o primeiro movimento do jogo, um tombo, e eu tenho de me deparar com o primeiro tópico da lista, e eu não sei o que colocar. Pois eu não sei o que eu quis dizer. É claro: foi um tombo. Mas eu estava lá para cair e foi tão bonito, e proveitoso, e a estrada foi tão linda! Está tudo ok e não existe espaço para tal beleza e tranqüilidade na minha lista. E então percebo que passei pelo menos dez anos da minha vida realizando uma prática que não me dizia nada, que não me servia, na qual o que mais prezo não tem espaço.
É claro que é uma prática boa. Veja só: pessoas bem-sucedidas costumam utilizá-la. Pessoas ótimas, como o Roberto Justus, a Ivete Sangalo, o Renato Aragão. Se você é como eles, e valoriza as grandes lições de vida que eles têm para dar, recomendo que escreva, com fé, no dia primeiro de janeiro de cada ano: o quanto do aumento você vai pedir para o seu chefe, qual dos city tours em Paris você vai comprar, como é o namorado que você quer que te dê um anel de brilhantes até dezembro. Mas, se você é como eu e é a pessoa que mais odeia acordar, acho que isso não vai te servir muito. Nossas vidas não se resumem a cumprir metas e conquistar impérios. Nós não temos vocação para Alexandre o Grande. Nossas vidas não comportam tópicos. Nossas vidas estão nos intervalos entre um e outro grande OK.
Se também for o teu caso, rasgue suas listas e venha tomar um café comigo.